segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Em tinta preta


Vem! Encanta-me a tua face
Intrigada a contemplar o desenlace
Da poesia derradeira. Goza
O momento com curiosidade jubilosa,

Espia por sobre meus ombros
As palavras que, de escombros,
Passam a plácidos castelos -
O som de espadas a chocarem-se em duelos;

O farfalhar das folhas d'outono vindouro;
As areias afuniladas na ampulheta;
Marteladas do artesão no couro.

Assim caminha a pena na caderneta,
Transformando a pedra bruta em ouro -
Um mundo que se exprime em tinta preta.

domingo, 12 de setembro de 2010

Reinvenção


Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

("Quase", Mário de Sá Carneiro)



Reinvento-me a cada dia. Este é o lema, e ele há de ser seguido.

Venho pensando muito em Mário de Sá Carneiro ultimamente. A razão? Eu mesmo desconheço. Creio que a inspiração que, numa lufada tácita de pé de vento e com o farfalhar de folhas de outono, trouxe a reminiscência do poeta português foi uma indagação que me foi feita recentemente:

- Qual o seu maior medo?

Tremi.

Sim, pois não o sei. Não o soube responder. Passei dias, semanas maturando, ruminando a questão até chegar a uma resposta. Meu medo, pensei eu, é morrer sem deixar legado algum, como o ilustre poeta supracitado. Todavia, veio-me um segundo pensamento, uma torrente de epifanias que me levou a uma segunda interpretação da resposta alcançada. Meu medo é, de fato, morrer sem saber quem sou. E esta é, conclusivamente, a maior mensagem que Mário de Sá Carneiro nos deixa em seus escritos, pois tudo fez e nada edificou.

- Serei eu assim? - Fora a pergunta que me acometera em seguida. Rastejo, levito, me abaixo e levanto sucessivamente. Busco, perscruto, investigo. E nada.

Eis o retrato da vida. - Mas basta! - Fora o que eu dissera, de boca cheia, tal como o faziam as rainhas inglesas diante da criadagem. Exceto pelo fato de que não há quem me sirva. Nasci para ser um, não dois. Isso já descobri, penso eu. Quero experimentar as coisas da vida intensamente, quero apreender o mundo na palma da mão e esmagá-lo com veemência, assistindo aos caudalosos mares se esvairem pelas frestas de meus dedos.

Sexo. Drogas. Arte.

Fumei quatro cigarros hoje. Logo eu, que dizia que nunca seria capaz de colocar sequer um na boca. Dormi com uma mulher dez anos mais velha. Foi revigorante. Penso que as coisas da vida são simples; trata-se de um encadeamento de escolhas e as veredas que resultam delas. Existe a vontade, oriunda do instinto, do holístico, e existe a razão. Optei por dar maior vazão a elas, deixar que conversem. Contemplei placidamente as duas sentando-se à mesa, requisitando ao bem vestido garçom uma xícara de café preto fumegante. E riam.

Riam como loucas.

Ainda quero fumar maconha. Foi uma vontade que tive e que agora, de sobressalto, vem ao meu encontro como um círculo de espadas do qual eu - desesperado, buscando uma saída a todo preço - somente me verei livre se decidir sangrar. A vida é uma sangria desatada, um mar de pérolas brancas em que ficamos à deriva trôpegos, cegos, buscando tão somente a pérola negra. E esta jamais vem.

Por que desejamos somente aquilo que não podemos ter? Desejei uma mulher comprometida. Aliás, "comprometimento". Seria o homem destinado a ser monôgame, exaurindo-se de seus anseios, matando dentro de si o instinto que o faz animal - um mamífero, tal qual um boi ou um carneiro? Ainda assim, observo a natureza. Os leões são capazes de tudo para manterem suas parceiras. Capazes, inclusive, de assassinar os próprios filhos.

Sou de leão. Trinta de julho. Mas jamais mataria meus filhos. Jamais faria mal a uma criança. Penso que são as criaturas mais perfeitas do universo, o ser humano em seu estágio absoluto de existência. Vejo nos olhos de uma criança a salvação que muitos procuram na mente sórdida de um adulto. Finalmente, disse então, descobri o que me aflige. Sou criança. Uma criança crescida, presa com grilhões de prata na Terra do Nunca, da qual me recuso a sair mesmo tendo a chave de minhas algemas no bolso do paletó. E de madrugada, brinco de ser adulto. Esquivo-me como um verdadeiro escapista dos laços que me condenam e regresso ao encontro da boêmia. Com ela danço, canto e gargalho um riso estupefante. É como estar vivo, mas sem os estigmas sociais a me podarem e punirem a todo momento.

Danilo Gentili já dissera o que há para ser dito. O politicamente correto está deixando as pessoas idiotas. Quando se deviam ocupar do conteúdo, atentam-se à forma e fazem dela a única partícula da mensagem digna de ser criticada. E criticam - sem fundamento, sem coerência.

Criticam sem vontade.

E por falar em vontade, retorno ao ponto de partida e atinjo o clímax destes questionamentos. Sinto-me à beira de um orgasmo: a reinvenção!

Reinvento-me a cada dia. Este é o lema, e ele há de ser seguido.